10:00h
BIBLIOTECA ESCOLAR EB2,3 D. PEDRO II – MOITA
Das palavras do autor: «Sou uma pessoa movida pelo amor, pelas pessoas e pelas relações. Nesse sentido, sou afortunado.
Família, amigos. Tenho tudo. Não consigo ainda assim iludir este sentimento de vazio. A vida. A minha vida. Condenada pela genética logo à partida. Tento agora uma forçosa correcção. Um corrector anatómico que se extradite para um plano celular. Algo. Alguém. Uma experiência de vida alternativa, rumos invulgares. Uma dimensão com uma constante banda sonora. Tic. O tempo sempre se exibiu como um impedimento. Nunca quis para mim o que eu quis fazer dele. Descreve a minha realidade de forma crua e calculista. Acumula-se o pó sobre as cadeiras, os móveis. Representamos pouco mais do que um consumo de matéria-prima, energia explanada sobre várias formas. Até a cadência final se aproximar. Tac. Procuramos atentamente uma razão que nos faça suprimir o mau humor provocado por se estar vivo.
Não o tento fazer. Esforço-me por compreender a beleza da casualidade, do aleatório. Irei vaguear então pela orla fina a que chamamos vida. Tic.
Tentarei dar um sentido maior à minha. Criar impacto em terceiros e gerar assim uma extensão artificial do meu ser que permaneça impermutável. Acolhido nos cantos recônditos do lobo temporal medial de alguém. Tac. As minhas conclusões? Sou feliz. Um rapaz pobre e mal agradecido pela felicidade que tem. Alguém que quer sempre mais. Não lhe chamo ambição, apenas uma fome por saciar. Uma sede por sorrir. Tic. Afortunado pela vida. Ainda que modestamente. Tac. 6h00. Ainda deitado, empunho um pequeno livro que não cheguei a abrir. Tic.
Atrasado. Sempre atrasado. Tac. O quanto me apraz sentir estes devaneios de um presunçoso intelecto.
Tiquetaque. Tiquetaque. Tiquetaque.»
Diogo Lopes tem 16 anos e frequenta o Curso de Piano e Composição no Conservatório e o Hot Club onde pertence a uma banda.
Destinatários: 2º e 3º ciclos
