“Tudo o que faço ou não faço
Outros fizeram assim
Daí este meu cansaço
De sentir que quanto faço
Não é feito só por mim”
Escreveu Luís de Macedo e Amália deu-lhe voz nos anos sessenta, acompanhada ao saxofone pelo músico americano Don Byas, num LP de seu nome “Encontro”. Ao contrário das palavras do poeta, não sinto esse cansaço. Não sinto esse cansaço, nem essa tristeza porque sei que tudo aquilo que faço é um revisitar de lugares, que já foram visitados por alguém. Todos nós, carregamos uma bagagem de lugares, sons, imagens, cheiros, cores, de sins e de nãos que escrevem a nossa história. Uma bagagem de pessoas que conhecemos, de coisas que vivemos e de outras que imaginámos ter vívido. A palavra reciclar é uma palavra na qual embatemos todos os dias, que já se tornou banal e que na maior parte das vezes não se põe em prática. Gosto mais da palavra voltar. E gosto particularmente de voltar onde fui feliz ou nalguns casos onde esse prazer não existiu.
É urgente olhar, é urgente beber tudo o que a vida nos oferece, para de seguida poder criar, mesmo que esse tempo demore a chegar. Sou natural de Campo Maior, uma vila do Alto Alentejo, onde de quando em vez a população dialoga e num trabalho comunitário faz o que no meio artístico se pode chamar de instalação, transformando o conjunto de ruas num jardim de papel e dai; passados tantos anos este meu voltar ao papel, ao cortar, ao ouvir o som do papel a ser rasgado, ao colar, ao tempo de espera de colagem, no meu caso, para poder pôr os cartões na vertical e ver o resultado. Voltar com todo o gosto às pequenas imperfeições do fazer para chegar á harmonia de um todo. Voltar à vastidão do montado, às colmeias de cortiça que o meu avô materno fazia e ao tarro do mesmo material, onde levava o almoço quando ia trabalhar no campo.
É urgente recriar a nossa bagagem, é urgente arriscar e não ficarmos reféns de opiniões alheias. É urgente pegar nos materiais para não ficarmos presos unicamente ao conceito.
Principalmente é preciso fazer e voltar a fazer, porque quando pegamos novamente no trabalho, já não somos o mesmo de ontem. Já vivemos mais e vemos o nosso trabalho com um outro olhar.
Rui da Rosa
Segunda-feira a sábado, das 10:00H às 12:30h e das 14:00H às 18:30H
