Hoje, dia 27 de março, comemora-se o Dia Mundial do Teatro
Para assinalar o Dia Mundial do Teatro, o Instituto Internacional de Teatro da UNESCO convida desde 1962 uma personalidade de renome internacional da área do teatro para redigir uma mensagem dedicada ao tema «Uma Cultura de Paz». Este ano, o autor da mensagem é o pedagogo e encenador grego Theodoros Terzopoulos.
O Município da Moita convida a que leia, oiça e partilhe a mensagem, disponível abaixo na versão vídeo, realizado pela companhia de Teatro do Noroeste - Centro Dramático de Viana, que gentilmente cedeu a sua partilha.
Autor da Mensagem: Theodoros TERZOPOULOS, GréciaEncenador, Pedagogo, Autor, Fundador e Diretor Artístico da Attis Theatre Company, Inspirador das Olimpíadas de Teatro e Secretário-Geral do ComitéI nternacional das Olimpíadas de Teatro
Mensagem do Dia Mundial do Teatro 2025 Theodoros TERZOPOULOS
Poderá o teatro ouvir o pedido de SOS que os nossos tempos estão a enviar, num mundo dec idadãos empobrecidos, fechados em células de realidade virtual, entrincheirados na sua privacidade sufocante? Num mundo de existências robotizadas dentro de um sistema totalitário de controle e repressão em todo o espectro da vida?
Estará o teatro preocupado com a destruição ambiental, o aquecimento global, a perda maciça de biodiversidade, a poluição dos oceanos, o derretimento das calotas polares, o aumento dos incêndios florestais e os fenómenos meteorológicos extremos? Poderá o teatro tornar-se parte ativa do ecossistema? O teatro acompanha o impacto humano no planeta há muitos anos, mas está com dificuldades em lidar com este problema.
Estará o teatro preocupado com a condição humana tal como está a ser moldada no século XXI, em que o cidadão é manipulado por interesses políticos e económicos, redes de comunicação social e empresas fazedoras de opinião? Onde as redes sociais, por mais que a facilitem, são o grande álibi da comunicação, porque proporcionam a necessária distância segura do Outro?
Uma sensação generalizada de medo do Outro, do diferente, do Estranho, domina os nossos pensamentos e ações.
Pode o teatro funcionar como laboratório para a coexistência de diferenças, sem levar em conta o trauma sangrento?
O trauma sangrento convida-nos a reconstruir o Mito. E nas palavras de Heiner Müller “O mito é um agregado, uma máquina à qual novas e diferentes máquinas podem sempre ser conectadas.
Transporta a energia até que a velocidade crescente faça explodir o campo cultural” – e, eu acrescentaria, o campo da barbárie.
Podem os holofotes do teatro lançar luz sobre o trauma social, e parar de se iluminar a si mesmo de forma enganadora?
Perguntas que não permitem respostas definitivas, porque o teatro existe e perdura graças a perguntas por responder.
Perguntas desencadeadas por Dionísio, passando pela sua terra natal, a orquestra do antigo teatro, e continuando a sua silenciosa viagem de refugiado por paisagens de guerra, hoje, no Dia Mundial do Teatro.
Olhemos nos olhos de Dionísio, o deus extático do teatro e do Mito que une o passado, o presente e o futuro, filho de dois nascimentos, de Zeus e Semele, que exprime identidades fluidas, feminina e masculina, raivoso e gentil, divino e animal, no limite entre a loucura e a razão, a ordem e o caos, um acrobata na fronteira entre a vida e a morte.
Dionísio coloca uma questão ontológica fundamental “de que é que trata tudo?”, uma questão que impulsiona o criador para uma investigação cada vez mais profunda sobre a raiz do mito e as múltiplas dimensões do enigma humano.
Precisamos de novas formas narrativas destinadas a cultivar a memória e a moldar uma nova responsabilidade moral e política que emerja da ditadura multiforme da atual Idade Média.
Theodoros Terzopoulo
