Voto de Pesar Pelo Falecimento de Maria Teresa Horta
Faleceu, no dia 4 deste mês, em Lisboa, a escritora e jornalista Maria Teresa Horta, tratou-se de uma perda de dimensões incalculáveis para a literatura portuguesa, para a poesia, o jornalismo e o feminismo, a quem Maria Teresa Horta dedicou, orgulhosamente, grande parte da sua vida.
Autora de uma extensa obra, a escritora viu o seu livro de poesia Minha Senhora de Mim apreendido pela PIDE oito dias após a sua publicação. Posteriormente foi alvo de uma feroz perseguição e de um processo de pura humilhação. Chegou a ser fisicamente agredida em plena rua: “É para aprenderes a não escreveres como escreves”, disseram-lhe.
Foi na sequência destes acontecimentos que Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa decidiram desafiar o regime fascista e “tecer”, a seis mãos, a obra Novas Cartas Portuguesas, publicada há 50 anos.
O regime fascista considerou o conteúdo de Novas Cartas Portuguesas “insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública” e ameaçou com uma pena entre seis meses a dois anos de prisão.
As “Três Marias”, foram alvo de uma tentativa implacável de as humilhar e intimidar e de fingir que não se tratava de um processo político. O julgamento coincidiu com a primeira conferência internacional de mulheres, que teve lugar em Boston, entre 3 e 5 de junho de 1973. As Novas Cartas Portuguesas foram o tema central deste encontro, e adotadas como a primeira causa feminista internacional.
A leitura da sentença chegou a estar marcada, após um primeiro adiamento, para o dia 25 de Abril de 1974.
Mas a Revolução dos Cravos fez cair o regime fascista, e a sessão final acabou por decorrer a 7 de maio de 1974, com a absolvição das três escritoras.
Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno estiveram na origem da criação do Movimento de Libertação das Mulheres. A manifestação organizada por este movimento a 13 de janeiro de 1975, e a violência machista com que esta foi recebida, foi ilustrativa do longo caminho ainda a percorrer no sentido da efetiva libertação das mulheres. Em 2021, a escritora recordou esse dia, que há poucas semanas fez 50 anos: “Estávamos em liberdade, mas, de repente, as mulheres foram as únicas que sentiram que afinal não havia tanta liberdade quanto isso. Liberdade só para os homens, e talvez para as mulheres que se mantivessem quietinhas e caladinhas”.
Distinguida com inúmeros galardões, em 2011, Maria Teresa Horta, ainda que aceitando o Prémio D. Dinis, pela sua obra “As Luzes de Leonor”, recusou recebê-lo das mãos do então primeiro-ministro.
Sem nunca abandonar a intervenção cívica e política, Maria Teresa Horta continuou até ao fim da sua vida a apoiar a causa feminista.
Moita, 5 de março de 2025
2.1_Voto_Pesar_Falecimento_Maria_Teresa_Horta
O Voto de Pesar, apresentado pelo Grupo Municipal do BE, com o nº2.1 da Ordem de Trabalhos, foi aprovado por unanimidade, com 30 votos a favor, sendo 15 do PS, 9 da CDU, 2 do BE, 1 do PSD, 1 do CDS, 1 do Independente Bruno Mendes, 1 do Independente Ana Pereira, na 1ª Reunião da Sessão Ordinária de fevereiro, realizada a 28 de fevereiro de 2025.



